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O Evangelho como me foi revelado

Em Belém, na casa de um camponês e na gruta do Nascimento

8 de janeiro de 1945

 

Uma estrada na planície pedregosa, poeirenta, seca pelo sol do verão. Ela se estende entre possantes oliveiras, todas carregadas de pequenas azeitonas, que mal acabaram de formar-se. O chão, nos lugares não pisados, tem ainda um tapete de miúdas florzinhas das oliveiras, que caíram depois da fecundação.

 

Jesus, com os três, anda em fila indiana, ao longo da beira da estrada, onde a sombra das oliveiras conservou a erva ainda verde e, por isso, ali há menos pó.

 

A estrada tem uma dobra em ângulo reto, além da qual sobe levemente em direção a um vale em forma de grande ferradura, sobre a qual estão espalhadas numerosas casas e casinhas, de modo a formar uma pequena cidade. Justamente no ponto em que a estrada faz esta curva, há uma construção em forma de cubo, por onde se entra através de uma cúpula baixa. Ela está toda fechada, e parece abandonada.

 

- Lá está o sepulcro de Raquel, diz Simão.

- Então, já estamos quase chegando. Vamos entrar logo na cidade?

- Não, Judas. Antes vos mostrarei um lugar... Depois, entraremos na cidade e, visto que ainda é dia claro e a noite vai ser de luar, poderemos falar à população. Se ela quiser escutar.

- E ela não vai querer te escutar?

 

Chegaram ao sepulcro, antigo, mas bem conservado, bem caiado. Jesus se detém para beber em um poço rústico ali perto.

 

Oferece-lhe água uma mulher que veio apanha-la. Jesus lhe pergunta:

- És de Belém?

- Eu sou. Mas agora em tempo de colheita estou com o meu marido neste campo, cuidando das hortas e dos pomares. E Tu, és galileu?

- Nasci em Belém, mas moro em Nazaré da Galiléia.

- Perseguido, também Tu?

- Minha família. Mas, por que dizes “também Tu”? Entre os belemitas, há muitos perseguidos?

- E não sabes disso? Quantos anos tens?

- Trinta.

- Então nasceste justamente quando... Oh! Que desventura! Mas, por que foi nascer aqui, Aquele?

- Quem?

- Ora, aquele que se dizia o Salvador. Maldição aos tolos que, embriagados com cerveja, viram anjos nas nuvens, ouviram nos balidos das ovelhas e nos zurros dos burros vozes do Céu e, nas névoas da embriaguez, confundiram três miseráveis como sendo os mais santos da terra. Maldição para eles! E para os que creram neles.

- Mas, com todas as tuas maldiçöes, não me explicaste ainda o que foi que aconteceu. Por que amaldiçoas?

- Porque... Mas escuta, para onde queres ir?

- Para Belém com os meus amigos. Tenho umas coisas a fazer lá. Preciso saudar velhos amigos e levar-lhes a saudação de minha mãe. Mas antes, Eu queria saber muitas coisas, porque estivemos fora, nós da família, por muitos anos. Nós deixamos a cidade, quando Eu ainda estava com poucos meses.

- Então, foi antes da nossa desventura. Escuta, se não ficas aborrecido com a casa de um camponês, vem dividir conosco o pão e o sal. Tu e os teus companheiros. Falaremos durante o jantar e eu vos darei alojamento até amanhã de manhã. Minha casa é pequena. Mas, sobre a estrebaria há muito feno amontoado. A noite é quente e serena. Se quiseres, podes dormir.

- O Senhor de Israel recompense a tua hospitalidade. Eu irei com alegria à tua casa.

- O peregrino traz consigo a bênção. Vamos. Mas eu preciso ainda ir despejar seis ânforas de água sobre as verduras, que nasceram há pouco.

- Eu te ajudarei.

- Não. Tu és um senhor. Teus modos o dizem.

- Eu sou um operário, mulher. Este aqui é um pescador. Estes, judeus, gente de posses e bem colocados. Eu, não.

 

E pega uma ânfora bojuda pousada perto do baixíssimo murinho do poço, a amarra e desce- a.

 

João o ajuda. Os outros também não querem ficar atrás e dizem à mulher:

 

- Onde estão tuas hortaliças? Mostra-nos que para lá levaremos as ânforas.

- Deus vos abençoe! Estou com os rins machucados pelo cansaço. Vinde.

 

E enquanto Jesus está tirando do poço a sua ânfora, os três desaparecem por uma vereda abaixo... Depois voltam com as suas ânforas vazias, enchem- nas, e vão novamente. E assim fazem, não três, mas bem umas dez vezes. E Judas ri, dizendo:

 

- Ela deve estar cansada de abençoar-nos. Nós levamos tanta água para as suas verduras que, pelo menos por dois dias, a terra estará úmida e a mulher não precisará machucar os seus rins. Quando ele volta pela última vez, diz:

- Mestre, creio porém, que vamos nos dar mal.

- Por que, Judas?

- Porque a briga dela é com o Messias. Eu lhe disse: “Não blasfemes. Não sabes que a maior graça para o povo de Deus é o Messias? Jeová(*) o prometeu a Jacó e a todos os profetas e justos de Israel. E tu o odeias?”. E ela me respondeu: “Não a Ele. Mas aquele que foi chamado "Messias” por uns pastores bêbados e por uns malditos adivinhos do Oriente". E já que o Messias és Tu...

- Não importa. Eu sei que estou colocado à prova e contradição de muitos. E tu lhe disseste que sou Eu?

- Não. Eu não sou tolo. Eu quis salvar as tuas e as nossas costas.

- Fizeste bem. Não por causa das costas. Mas porque desejo manifestar-me quando julgar que seja o momento justo. Vamos.

 

Judas o guia até às hortaliças.

 

A mulher despeja as últimas três ânforas e depois os conduz a uma rústica construção que está no meio do pomar.

 

- Entrai, diz ela. Meu marido já está em casa.

 

Eles entram em uma cozinha baixa e enfumaçada.

 

- A paz esteja nesta casa, saúda Jesus.

- Quem quer que sejas, a bênção para Ti e para os teus. Entra, responde o homem.

 

E antes vai buscar uma bacia com água, para que os quatro se refresquem e se lavem. Em seguida, todos entram e se assentam junto a uma mesa tosca.

- Eu vos agradeço por minha mulher. Ela me falou. Eu nunca tinha me aproximado de galileus; me diziam que eles eram rudes e briguentos. Mas vós fostes gentis e bons. Vós já estáveis cansados... e ter ainda que trabalhar daquele modo. Estais vindo de longe?

- De Jerusalém. Estes são judeus. Eu e este outro somos da Galiléia. Mas, podes crer, homem, o bom e o mau estão em toda parte.

- É verdade. Eu, no meu primeiro encontro com os galileus, encontro o bom. Mulher, traz a comida. Não tenho outra coisa a não ser pão, verdura, azeitonas e queijo. Eu sou camponês.

- Eu também não sou um senhor. Eu sou carpinteiro.

- Tu? Com estes modos?

 

A mulher intervém:

 

- O hóspede é de Belém, como eu te disse, e são perseguidos ele e os seus; talvez tenham sido ricos e instruídos, como o eram Josué de Ur, Matias de Isaque, Levi de Abraão... pobres infelizes!

- Ninguém te perguntou nada. Perdoa-a. As mulheres são mais faladeiras do que os pássaros à tarde.

- Eram famílias belemitas?

- Como? Não sabes quem eram, tu que és de Belém?

- Nós fugimos, quando Eu tinha poucos meses...

 

A mulher, que deve ser mesmo faladeira, torna a falar:

 

- Ele foi-se embora, antes do massacre.

- É. Estou vendo. De outro modo, não estaria mais no mundo. Não voltaste mais por aqui?

- Não.

- Que infelicidade! Poucos encontrarás daqueles que, como me disse Sara, Tu queres conhecer e saudar. Muitos foram mortos, muitos fugiram, muitos... Ah! Estão dispersos, e nunca se soube se foram mortos no deserto, ou se faleceram no cárcere, em punição por sua rebelião. Mas foi rebelião? E quem ficaria passivo deixando que degolassem tantos inocentes? Não, não é justo que ainda estejam vivos o Levi e o Elias, enquanto tantos inocentes morreram!

- Quem são esses dois, e que foi que fizeram?

- Mas... ao menos da matança ficaste sabendo. A matança feita por Herodes... Mais de mil crianças(**) na cidade, um outro milhar nos campos. E todos, aliás, quase todos varões, porque naquela fúria, no escuro, no conflito que se armou, os ferozes pegaram, arrancaram dos berços, dos leitos maternos, das casas assaltadas, até as menininhas, e as transpassaram como filhotinhos de gazela, transformados em alvos por um arqueiro. Pois bem, e tudo isso

por que? Porque um grupo de pastores que, para vencerem o frio da noite, por certo beberam bastante cerveja, foram tomados pelo delírio, e disseram ter visto anjos, ouvido canções, recebido indicações... e disseram a nós de Belém: “Vinde. Adorai. O Messias nasceu”. Pensa: o Messias em uma caverna! Em verdade, devo dizer que embriagados fomos todos, eu também, então adolescente e minha mulher, que naquele tempo tinha poucos anos... porque todos nós acreditamos, e em uma pobre mulher galiléia quisemos ver a Virgem parturiente da qual falaram os Profetas. Mas, se ela estava na companhia de um rude galileu! O marido certamente. Se ela era sua mulher, como podia ser a “Virgem”? Em suma, acreditamos. Presentes, adorações... casas abertas para hospedá-los... Oh! Como souberam representar bem a parte deles! Pobre Ana! Perdeu os bens e a vida, e também os filhos de sua filha, a primeira, a única que se salvou, porque casada com um comerciante de Jerusalém, mas perderam os bens, sua casa foi queimada, e todo o seu sítio foi arrasado por ordem de Herodes. Agora, é um campo inculto, sobre o qual pastam os rebanhos.

- Tudo culpa dos pastores?

- Não, também dos três bruxos, que vieram dos reinos de Satanás. Talvez fossem compadres dos três... E nós, tontos, considerávamos aquilo tudo como uma honra para nós! E aquele pobre arqui-sinagogo! Nós o matamos porque ele jurou que as profecias punham o selo da verdade nas palavras dos pastores e dos magos...

- Tudo culpa, então, dos pastores e dos magos?

- Não, galileu. Nossa também. Da nossa credulidade. Havia tanto tempo que se esperava o Messias! Séculos de espera. Muitas desilusões nos últimos tempos, por causa dos falsos Messias. Um deles era galileu, como Tu, um outro se chamava Teúdas. Mentirosos! Messias eles! Não eram mais do que ávidos aventureiros, a caça de fortuna! A lição devia ter-nos feito mais espertos. Ao invés...

- E então, por que maldizer todos, os pastores e os magos? Se vos julgais tolos vós também, então deveríeis maldizer-vos também. Mas a maldição não é permitida pelo preceito do amor. Maldição atrai maldição. Tendes certeza de que estais com a verdade? Não poderia ser que os pastores e os magos tivessem dito a verdade, a eles revelada por Deus? Por que querer crer que eles eram mentirosos?

- Porque os anos da profecia não se tinham completado. Depois percebemos... depois que o sangue, que avermelhou a água de nossos tanques e rios, nos abriu os olhos do pensamento.

- E não poderia o Altíssimo, por um excesso de amor para com o seu povo, antecipar a vinda do Salvador? Sobre o que foi que os magos basearam suas afirmações? Disseram-me que eles vinham do Oriente...

- Nos cálculos que fizeram sobre uma nova estrela.

- E não está escrito(***): “Uma estrela nascerá de Jacó, e uma vara se levantará de Israel”? E Jacó não é o grande patriarca, e não fez ele uma parada nesta terra de Belém, que para ele era tão querida como a pupila de seus olhos, por ter aí morrido a sua querida Raquel? Além disso, não foi dito pela boca do profeta: “Um broto despontará da raiz de Jessé, e uma flor nascerá dessa raiz”? Isai, o pai de Davi nasceu aqui. O broto da estirpe, cortada perto da raiz pela usurpação dos tiranos, não é a “Virgem”, que dará à luz o Filho, não tido de homem, porque

então não seria mais virgem, mas da vontade divina, onde Ele será “o Emanuel”, porque, como Filho de Deus, será Deus e levará por isso Deus entre o seu povo, como diz o seu nome? E não será anunciado, como diz a profecia, aos povos das trevas, ou seja, aos pagãos “por uma grande luz”? E a estrela vista pelos magos não poderia ser a estrela de Jacó, a grande luz das duas profecias, a de Balaão e a de Isaías? E a própria matança realizada por Herodes não faz parte das profecias? “Um grito foi ouvido no alto... É Raquel que chora os seus filhos”. Estava marcado que as lágrimas fizessem gemer os ossos de Raquel em seu sepulcro em Efrata, quando, por meio do Salvador, tivesse chegado a recompensa ao povo santo. Lágrimas que depois se transformariam em um riso celeste, como o arco-íris, que é formado pelas últimas gotas do temporal, mas diz: “Eis um tempo sereno que vos é concedido”.

- Tu és muito douto. És rabi?

- Eu sou.

- Eu estou percebendo. Há luz e verdade nas tuas palavras. Mas... Oh! Muitas feridas ainda sangram nesta terra de Belém por causa do verdadeiro ou do falso Messias... Eu não o aconselharia a vir mais aqui. A terra o rejeitaria, como se rejeita um enteado por causa do qual morreram os filhos verdadeiros. Mas agora... se era Ele... já está morto como os outros que foram degolados.

- Onde estão morando agora Levi e Elias?

- Tu os conheces? O homem suspeita de alguma coisa.

- Eu não os conheço. O rosto deles para Mim é desconhecido. Mas são infelizes e Eu sempre tive dó dos infelizes. Quero ir procurá-los.

- Pois, sim. Serás o primeiro, depois de quase seis lustros. Eles ainda são pastores e trabalham para um rico herodiano de Jerusalém que se apropriou de muitos bens dos mortos... Há sempre quem ganha! Tu os encontrarás com os rebanhos nos altos que ficam perto de Hebron. Mas, dou-te um conselho: não te deixes ver pelos belemitas falando com eles. Ficarias prejudicado. Nós os suportamos porque aí está o herodiano. Senão...

- Oh! Que ódio! Por que odiar?

- Porque é justo. Eles nos fizeram mal.

- Acreditavam estarem fazendo o bem.

- Mas fizeram mal. E mal a eles advenha. Devíamos matá-los, como eles fizeram; matar por sua estultícia. Mas nós estávamos apatetados, e depois... lá estava o herodiano.

- Se ele não estivesse lá, então, depois do primeiro, ainda compatível impulso de vingança, vós os teríeis matado?

- Mesmo agora, nós os mataríamos, se não tivéssemos medo do patrão deles.

- Homem, Eu te digo: não odeies. Não desejes o mal. Não desejes fazer o mal. Aqui não há culpa. Mas ainda que houvesse, perdoa. Em nome de Deus, perdoa. Vai dizer isto aos outros belemitas. Quando cair o ódio de vossos corações, virá o Messias; o conhecereis, então, porque Ele esta vivo, Ele já existia, quando se deu a matança. Eu vo-lo digo. Não por culpa dos pastores e dos magos, mas por culpa de Satanás é que aconteceu a matança. O Messias nasceu aqui e veio trazer a Luz a terra de seus pais. Filho de mãe virgem, da estirpe de Davi,

nas ruínas da casa de Davi abriu para o mundo o rio das graças eternas, abriu a Vida ao homem...

- Fora, fora! Sai daqui! Tu, seguidor desse falso Messias, que só podia ser falso, porque trouxe a desventura a nós de Belém. Tu o defendes, portanto...

- Silêncio, homem. Eu sou judeu, e tenho amigos altamente colocados. Poderia fazer-te arrepender do insulto, dispara Judas, segurando o camponês pela veste e sacudindo-o, com violência e ira.

- Não, não, fora daqui! Não quero aborrecimentos nem com belemitas, nem com Roma, nem com Herodes. Ide embora, malditos, se não quereis que vos deixe com uma marca. Fora!...

- Vamos, Judas. Não reajas! Deixemo-lo no seu ódio. Deus não penetra onde há rancor. Vamos.

- Sim. Vamos. Mas vós me pagareis.

- Não, Judas. Não fales assim. Eles são cegos... Haverão tantos no meu percurso...

 

Saem, seguindo Simão e João, que já estão fora conversando com a mulher, atrás do canto da estrebaria.

 

- Perdoa ao meu marido, Senhor. Eu não esperava causar este transtorno... Eis aqui, pega. Tu os tomarás amanhã cedo. São frescos, foram postos hoje. Não tenho outra coisa... Perdão. Onde irás dormir? (E dá-lhe uns ovos).

- Não penses nisso. Eu sei para onde ir. Vai em paz pela tua bondade. Adeus.

 

Caminham alguns metros em silêncio. Depois, Judas explode:

 

 

- Mas Tu não te fizeste adorar! Por que não fizeste que se curvasse até à lama, aquele sujo blasfemador? Até o chão! Abatido por ter faltado contra Ti, que és o Messias... Oh! Eu o teria feito! Os samaritanos têm que ser incinerados com o milagre. Só isso os convence.

- Oh! Quantas vezes terei que ouvir falar isso! Se Eu devesse incinerar a todos os que pecam contra Mim!... Não, Judas. Eu vim para criar. Não para destruir.

- É. Mas, enquanto isso, os outros Te destroem.

 

Jesus não rebate. Simão pergunta:

 

- Para onde vamos agora, Mestre?

- Vinde Comigo. Eu conheço um lugar.

- Mas, se nunca estiveste aqui, desde o tempo em que fugiste, como o conheces? – pergunta Judas, ainda irritado.

- Eu conheço. Não é bonito. Mas nele Eu já estive uma vez. Não é em Belém... mas um pouco afastado... Vamos virar para aquele lado.

 

Jesus vai na frente, depois Simão, depois Judas, por último João...

 

Em silêncio, interrompido apenas pelo barulho das sandálias sobre as pedrinhas do caminho, quando se ouve um soluço.

 

- Quem está chorando? - pergunta Jesus, virando-se. E Judas:

- É o João. Ele ficou com medo.

- Não. Não fiquei com medo. Eu já estava com a mão na faca que trago na cintura... Mas eu me lembrei de tua palavra:

- Não mates, perdoa. Sempre falas assim...

- E então por que choras? - pergunta Judas.

- Porque sofro, ao ver que o mundo não quer Jesus. Não o reconhece, e não o quer conhecer. Oh! É uma grande dor! É como se me enfiassem no coração uns espinhos de fogo. É como se eu tivesse visto alguém pisar em minha mãe ou cuspir no rosto de meu pai... É mais ainda do que isso... É como se tivesse visto os cavalos romanos comendo na Arca Santa, e irem repousar no Santo dos Santos.

- Não chores, meu João. Tu o dirás por esta e por infinitas outras Vezes: “Ele era a Luz, que veio para brilhar entre as trevas, mas as trevas não o compreenderam. Veio ao mundo, que por Ele tinha sido feito, mas o mundo não o conheceu. Veio à sua cidade, à sua casa, e os seus não o receberam”. Oh! Não chores assim!

-Isto não sucede na Galiléia! - suspira João.

- E muito menos na Judéia, rebate Judas. Jerusalém, que é a capital, há três dias, estava dando hosanas a Ti, Messias. Aqui... lugar de rudes pastores, camponeses e hortelãos... não pode ser tomado por base. Afinal, os galileus também não serão todos bons. De resto, Judas o falso Messias, de onde era? Dizia-se...

- Basta, Judas. Não convém inquietar-se. Eu estou calmo. Que vós também assim estejais. Judas, vem cá. Eu preciso falar contigo. (Judas se aproxima dele) Pega a bolsa. Tu farás as despesas de amanhã.

- E agora, onde iremos hospedar-nos?

 

Jesus sorri, e se cala.

 

A noite já desceu. A lua cobre tudo de candura. Os rouxinóis cantam entre as oliveiras. Um rio passa como uma fita de prata sonante. Dos prados, que foram roçados, vem o cheiro do feno: quente, eu diria um cheiro sensual. Ouve-se um ou outro mugido. Um ou outro balido. E estrelas e mais estrelas sem conta, uma sementeira de estrelas sobre o velário do céu, um dossel de gemas vivas, estendido sobre as colinas de Belém.

 

- Mas, por aqui... só há ruínas. Para onde nos estás levando? A cidade fica daquele lado.

- Eu sei. Vem. Segue o rio, atrás de Mim. Ainda uns poucos passos, e depois... depois vou te oferecer a hospedagem do Rei de Israel.

 

Judas encolhe os ombros, e se cala.

 

Mais uns poucos passos. Em seguida, aparece um amontoado de casas desmoronadas. Restos de moradia... Um antro entre duas fendas do paredão.

 

Jesus diz:

 

- Trouxestes o acendedor? Acendei.

 

Simão acende um pequeno candeeiro que tirou do seu alforje, e o entrega a Jesus.

 

- Entrai, diz o Mestre levantando a pequena luz. Entrai. Este é o quarto onde nasceu o Rei de Israel.

- Estás brincando, Mestre! Isto aqui é uma fétida caverna. Ah! Eu aqui não fico mesmo! Tenho nojo de tudo isso. Este lugar é úmido, frio, fétido, cheio de escorpiões, e talvez até de serpentes...

- Contudo... Amigos, aqui, na noite do dia 25, das Encênias, da Virgem nasceu Jesus Cristo, o Emanuel, o Verbo de Deus feito Carne por amor do homem: Eu, que vos falo. Também naquele tempo, como hoje, o mundo se fez surdo às vozes do Céu, que falavam aos corações... e rejeitou a mãe... e aqui... Não, Judas, não desvies com desgosto o teu olhar daquelas corujas esvoaçantes, daquelas lagartixas, daquelas teias de aranha, e não soergas com repugnância a tua bonita veste bordada para que não se arraste no chão, que está coberto de excrementos dos animais. Aquelas corujas são as filhas das filhas daquelas que foram os primeiros brinquedos sacudidos diante dos olhos do Menino, para o qual os anjos cantavam o “Glória” ouvido pelos pastores, não embriagados, senão por uma alegria extática, uma verdadeira alegria. Aquelas lagartixas, com sua cor de esmeralda, foram as primeiras cores que passaram pelas pupilas de meus olhos, as primeiras, depois do candor do rosto e das vestes de minha mãe. Aquelas teias de aranha foram dossel de meu berço real. Este chão... oh! tu o podes pisar sem desprezo... Ele está coberto de excrementos, mas está santificado pelos pés dela, a santa, a grande santa, a pura, a inviolada, a puérpera deípara, aquela que deu à luz porque devia dar à luz, deu à luz, porque Deus, não o homem, lhe mandou, e a fez ficar grávida de si. Ela, a sem mácula, pisou neste chão. Tu o podes pisar. E, pela planta dos teus pés, queira Deus que te suba ao coração a pureza por ela aqui derramada...

 

Simão está ajoelhado. João vai diretamente à manjedoura, e chora com a cabeça nela apoiada. Judas está estarrecido... Depois é vencido pela emoção e, sem mais pensar em sua bonita veste, prostra-se no chão, segura a ponta da veste de Jesus, a beija e bate no peito, dizendo:

 

- Oh! Misericórdia, bom Mestre, da cegueira do teu servo! Minha soberba cai por terra... eu Te vejo como és. Não o rei que eu pensava. Mas o Príncipe eterno, o Pai do século futuro, o Rei da paz. Piedade, meu Senhor e meu Deus! Piedade!

- Sim. Toda a minha piedade! Agora vamos dormir onde dormiu o Infante e a virgem, onde João tomou agora o lugar da mãe em adoração, onde Simão está parecendo o meu pai adotivo. Ou, se assim preferis, Eu vos falarei daquela noite...

- Oh! Sim, Mestre. Faze-nos conhecer o teu florescer!

- Para que seja uma pérola de luz em nossos corações. E para que o possamos narrar ao mundo.

- E venerar tua mãe, não somente por ser mãe, mas por ser... Oh! Por ser a virgem!

 

Primeiro falou Judas, depois Simão e, por fim João, com um rosto que está chorando e rindo, lá junto à manjedoura!...

 

- Vinde sobre o feno. Ouvi... e Jesus narra como foi a noite do seu nascimento. “... estando a mãe já perto do tempo de dar à luz, foi, por ordem de César Augusto, feito um edito pelo delegado imperial Públio Sulpício Quirino, quando era governador da Palestina Sêncio Saturnino. O edito era: que se fizesse o recenseamento de todos os habitantes do Império. Aqueles que não fossem escravos deviam ir para os seus lugares de origem, para se inscreverem nos registros do Império. José, esposo da mãe, era da estirpe de Davi, e de Davi era a mãe. Obedecendo, por isso, ao edito, deixaram Nazaré para virem até Belém, berço da estirpe real. O tempo estava frio...”.

 

Jesus continua a narração e tudo cessa neste ponto.

 

(*) Geová, foi corrigido em Javé, por MV numa cópia datilografada, na sequência da nota 59.5.

(**) mil crianças... Assim escreve MV num folheto que inseriu no fascículo da cópia datilografada: Em mérito aos Inocentes mortos no massacre de Herodes. Número exato é 32. Desses, 18 ƒoram mortos na cidade de Belém e 14 nos campos próximos de Belém. Entre os mortos figuram também 6 crianças do sexo feminino, não identificadas como fêmeas pelos sicários, dado que estavam, machos e fêmeas, vestidos todos de igual modo, e também pela pressa de matar e pela escuridão da noite. Como sempre acontece, o camponês exagera e desvirtua a verdade das coisas. E assim, muitas legendas falsas se criaram substituindo-se à verdade. Exclusa a consideração sobre o exagero do camponês, a nota de MV é a transcrição, não de todo textual e provavelmente feita de mente, de uma nota de 28 de Fevereiro de 1947 (mencionada no volume “Os Cadernos de 1945 a 1950”), da qual discorda nos números: 320 em vez de 32, 188 em vez de 18, 132 em vez de 14, 64 em vez de 6.

 

(***) está escrito, em: Gênesis 35, 15-20; Números 24, 15-17; 1 Samuel 17, 12; Isaías 7, 14;9, 1; 11, 1; Jeremias 31, 15. Os reenvios bíblicos, de que fizemos o elenco por ordem canônica dos livros, compreendem tanto as expressões citadas como os eventos apresentados.

(Excertos do Primeiro Livro: O Evangelho como me foi revelado, onde Nosso Senhor e Maria Santíssima revelam Suas Vidas a Grande Mística Maria Valtorta, das paginas 433 a 444.)

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