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Vidas dos Santos

Santa Gema Galgani: simplicidade de uma criança associada à profundidade de um teólogo

 

Santa Gema Galgani: simplicidade de uma criança associada à profundidade de um teólogo

Gema Maria Humberta Pia Galgani teve seu nome escolhido pelo tio e padrinho Maurício, que nele reuniu a pedra preciosa e as homenagens à Virgem, ao rei da Itália e ao Papa recém-falecido, além do nome de família. Nascida a 12 de março de 1878, recebeu o santo batismo no dia seguinte, cercada por vários familiares que nunca imaginariam a vida de sofrimento daquela menina que se tornaria uma destacada santa na família passionista, fundada por São Paulo da Cruz.

PERSONALIDADE DE SANTA GEMA

Diversos registros fotográficos evidenciam Santa Gema como dotada de uma impressionante profundidade de reflexão. Nota-se que seus pensamentos não são deste mundo. Vê-se nela o desapego das coisas terrenas, unido a uma extraordinária dignidade e uma castidade virginal.

INFÂNCIA

Gema, ainda pequena, acompanhou o sofrimento de sua mãe Aurélia, vítima de tuberculose (doença que ceifava muitas vidas no século XIX). A menção a Dona Aurélia esteve presente no início das experiências místicas de Gema, o que ocorreu em seguida à sua crisma, quando sentiu uma voz interior lhe indagar:“Gema, dá-me tua mãe?” A resposta da jovem, então com sete anos de idade, foi a seguinte: “sim, se me levares com ela”. Mas a condição não teve concordância: “Por enquanto terás de ficar com o teu papai. Tua mãe, vou levá-la para o céu. Dá-me de boa vontade?” E Gema, sem alternativa, aceitou, mas Dona Aurélia só partiu para a Casa do Pai dezesseis meses depois, após longo definhamento físico paralelo a um notável engrandecimento espiritual que a preparou para passar à eternidade.

Com a idade de nove anos Gema recebe a Primeira Eucaristia mas, nos dias que antecederam a recepção desse Sacramento, ao receber a catequese ministrada por uma religiosa sentiu uma profunda pena e compaixão ao ouvir falar da flagelação de Jesus e de sua coroação com espinhos. Isso lhe causou uma febre e a deixou acamada no dia seguinte.

FALSAMENTE ACUSADA DE SOBERBA

“Tia, a madre superiora disse-me: ‘Gema, minha gemazinha, esta manhã cometeste um pecado de soberba’. Tia, diga-me como se comete um pecado de soberba?” Esse fato, registrado por Gema, foi depois testemunhado por sua tia Elisa, a qual perguntou à pequena o que houvera feito. “Não sei! Eu não sei o que é um pecado de soberba”. Tal acusação, que foi uma grande prova interior para a inocente Gema, havia sido feita pela madre superiora apenas para a experimentar, como depois ela própria esclareceu, mas essa difamação da inocente menina como “soberba” se difundiu entre algumas pessoas. Na canonização de Gema a religiosa Julia Sestini ali estava para prestar homenagem à nova Santa, a quem indevidamente rotulara de soberba...

GUARDAR A PUREZA

Aos dezoito anos Gema emitiu privadamente o voto de castidade. Nessa idade começou a olhar detalhadamente para seu futuro, querendo entregar-se totalmente a Jesus. Certo dia, ao contemplar atentamente o Crucifixo, passou por um sofrimento tão intenso que caiu por terra, desmaiada.

“O nosso corpo é templo do Espírito Santo”, ouviu Gema do pregador em seu primeiro retiro espiritual. Ela registrou em sua autobiografia: aquelas palavras impressionaram-me tanto que procurei com todas as forças conservar puro o meu corpo. Nessa intenção Gema rezava diariamente três Ave-Marias. Decidida a ser toda de Jesus, recusou ela o caminho matrimonial e empenhou-se em conservar em altíssimo grau a virtude angélica.

AMOR AO PRÓXIMO E DESAPEGO

Aos 21 anos, recordou Gema em sua autobiografia, praticava a caridade ao distribuir dinheiro e víveres aos pobres, e até mesmo roupas, porém seu confessor a proibiu de assim proceder. Como seu pai não lhe dava dinheiro e Gema não dispunha de recursos próprios, passou ela a detestar vestidos e bagatelas, desapegando-se das coisas mundanas, o que desagradou seus familiares.

SOFRIMENTOS

Muitos foram os sofrimentos morais que se abateram sobre Gema: insultos, difamações, comentários sobre seu rendimento escolar, sobre sua debilidade física, e tantas coisas mais. Aceitava-os sempre com espírito de sacrifício, pedindo a Deus para as outras pessoas a conversão e a salvação.

A saúde frágil proporcionou a Gema inumeráveis ocasiões de oferecer sofrimentos a Jesus. Tinha o consolo de seu anjo da guarda, em meio a experiências místicas. Certa vez seu angélico companheiro respondeu-lhe à dúvida que expressou: “se Jesus te mortifica no corpo é para purificar-te cada vez mais no espírito”.

Chegou a se submeter (contra sua vontade, pois aceitava as doenças como sofrimento) a procedimentos cirúrgicos, mesmo sem anestesia, porém registrou em seus escritos que a dor foi nula, e o que a fez sofrer foi permanecer quase despida diante dos médicos.

OBSTINAR-SE NO PECADO É OBRA DE DEMÔNIOS

Certa vez recebeu provocante carta de sua irmã Ângela, a quem respondeu de forma humilde e ao mesmo tempo firme:

Escrevo-te para saberes que recebi tua carta. Conste, contudo, que não mereces resposta, porque senti que a escreveste sob pressão, sem saberes o que dizias.

Escuta-me de uma vez para sempre. Que te dei maus exemplos, que te ensinei coisas más, que te escandalizei? Tudo isso eu sei perfeitamente! Já o confessei e espero que me tenhas perdoado. Agora, apenas procuras desafogar a tua raiva recordando o tempo em que vivíamos juntas. Fica sabendo, também, que se Deus quisesse que me confessasse em público, eu não teria medo de fazê-lo, com voz clara e forte, sem necessidade de nada esconder. Espero que desta vez me tenhas entendido bem.

Desejo-te um Natal feliz e boas-festas. Espero que entendas que, pecar acontece com os santos, mas obstinar-se no pecado é obra de demônios...

Adeus, e procura ser boa. Sou a tua irmã Gema.

SÃO GABRIEL DE NOSSA SENHORA DAS DORES

Em meio a sofrimentos corporais ela teve por empréstimo um livro contendo passagens da vida de um jovem passionista, Gabriel de Nossa Senhora das Dores (atualmente canonizado), com o qual passou a ter diálogos místicos, um dos quais seguido da imposição do emblema passionista a Gema, a quem se referiu como “minha irmã”.

ESTIGMAS DA PAIXÃO DO SENHOR

Gema teve a graça de receber os estigmas da Paixão do Senhor, que lhe surgiram em junho de 1899. Freqüentemente as feridas se abriam, com extravasamento de sangue, e para disfarçar o que lhe ocorria (e atenuar a má impressão que poderia causar em algumas pessoas) Gema vestia luvas mesmo em ocasiões em que o uso de tal adereço não era habitual. Por vezes sentia dores na cabeça e em várias partes do corpo, o que se acompanhava de efusão de sangue, manifestação orgânica relacionada à coroação com espinhos e a flagelação do Senhor (fenômenos atestados por diversas testemunhas, algumas das quais declararam tê-la visto suar sangue, alusão à agonia de Jesus no Horto das Oliveiras). Em meio aos sofrimentos, “essas dores, em vez de me atormentar, enchiam-me de uma paz perfeita”, registrou Gema. E o diagnóstico médico, feito por um profissional acompanhado por um dignitário eclesiástico (Mons. Giovanni Volpi) em um momento de sangramento durante o êxtase, foi simplesmente “histerismo”.

OBTIDA A CONVERSÃO DE UM PECADOR DURANTE UM ÊXTASE

Desconcertado com os fenômenos que aconteciam com Gema, Mons. Volpi (que se tornara bispo diocesano) encarregou o Pe. Germano de Santo Estanislau a analisá-los, tendo este chegado a aventar a possibilidade de nela praticar um exorcismo. Gema recebeu-o com alegria, e em meio ao jantar, pressentindo o êxtase, levantou-se ela e retirou-se para seu quarto. Alguns momentos depois, chamado pela irmã do dono da casa (onde Gema estava residindo) a adentrar o cômodo, o sacerdote deparou-se com a jovem em pleno êxtase, conversando com Jesus e instando-o a converter um pecador cujo nome pronunciava claramente: “Jesus, quero pedir-te por aquele pecador... Salva-o, Jesus! Por que não te compadeces dele? Não me levanto daqui enquanto não me prometeres que o salvas”.

Os pedidos se multiplicavam com insistência, mas parecia que Jesus dizia a Gema que aquele pecador já havia ultrapassado os limites: “Jesus, sei que ele cometeu muitos pecados, porém mais os cometi eu e tiveste compaixão de mim”. E os pedidos continuaram, chegando a serem apresentados por intercessão de Maria Santíssima, até que chegou o momento em que Gema mudou de aspecto, e alegremente exclamou: “Salvou-se! Jesus, venceste! Triunfa sempre assim!

Já em seus aposentos, o Pe. Germano recebeu um pedido para atender uma pessoa que queria fazer a confissão: era o tal pecador convertido pelos pedidos de Gema. O sacerdote, ao fim da confissão, contou-lhe o que presenciara, obtendo permissão do penitente para divulgar o que com ele ocorreu. TERMINA A VIDA PEDINDO MAIS DOR

Em 1901, aos 23 anos, Gema recebe a ordem de redigir a autobiografia, que ela chamava “o caderno dos meus pecados”. Graças a essa edificante obra pôde-se saber detalhes da vida de sofrimento dessa mística italiana, que viveu no mundo a espiritualidade passionista. Aos 25 anos, no Sábado Santo de 1903, depois de uma vida de muitas humilhações Gema entregou sua alma ao Criador, devorada pelos sofrimentos, mas pedindo – até o último momento – mais dor. Revestida do hábito passionista – que lhe fora negado em vida por não ter condições de saúde compatíveis com os rigores do convívio comunitário – Gema teve seu corpo velado por familiares e amigos. Sepultado no dia seguinte, o corpo foi exumado quinze dias após a morte, procedendo-se à retirada de seu coração (que não exibia sinais de decomposição). Foi ele posto em um relicário, sendo atualmente venerado no seu Santuário em Madrid, na Espanha.

ATÉ NO BRASIL

Um irmão mais velho de Gema – Heitor – mudara-se para o Brasil após a morte do pai a fim de enriquecer, fugindo do empobrecimento que se abateu sobre sua família na Itália, tendo viajado com numerosos conterrâneos que buscavam uma nova pátria. Decidira voltar à Itália somente quando alcançasse o objetivo a que se propôs. Radicou-se no interior do estado de São Paulo, porém perdeu os bens que ainda possuía. Não se casou na Igreja (somente procedeu ao casamento civil), e afastou-se escandalosamente de Deus e da religião, perdendo o contato com seus familiares no país de origem. Mas a Providência fez com que uma estampa de Gema fosse parar em suas mãos, e então Heitor a pôs em uma moldura não por causa da fama de santidade, mas por ser sua irmã, simplesmente.

Em 1923, por ocasião de uma missão redentorista feita em Araraquara, um sacerdote que visitava os enfermos foi à casa de Heitor, que se encontrava doente. Deparando-se com a estampa de Gema Galani (por quem tinha devoção), foi informado pelo enfermo que ela era sua irmã, o que causou um alegre espanto no missionário visitante, feliz pelo encontro porém sem compreender como aquela pessoa, tão indiferente às coisas da religião, pudesse ser irmão de uma santa. O sacerdote transmitiu a Heitor vários aspectos da vida de virtudes heróicas de Gema, dos fenômenos extraordinários que nela se manifestavam, e dos milagres que Deus operava através de sua irmã, falecida vinte anos antes.

Heitor ficou admirado: “minha irmã, uma santa, e eu tão afastado da Igreja?” Tocado pela graça Heitor decidiu ir à igreja imediatamente, e os fiéis presentes ficaram estupefatos por verem ali chegar uma pessoa cujos exemplos de vida destoavam dos bons costumes e da santa religião. Preparou-se ele para receber o sacramento da Reconciliação, e seu exemplo multiplicou-se naquele lugar, mostrando que por intercessão de Gema não somente seu irmão se converteu, mas também numerosos outros habitantes que foram tocados pelo exemplo de Heitor. A missão, que nos quatro primeiros dias parecia destinada a obter escassos frutos, depois dessa marcante conversão evoluiu para um êxito fenomenal.

Fontes:

Santa Gema Galgani (Pe. Fernando Piélagos CP, Paulinas, 2004)

Vida de uma santa (http://digilander.libero.it/raxdi/porto/vitag.htm)

Santa Gema Galgani, a jóia preciosa de Lucca (http://www.filhosdapaixao.org.br/geo_santos_gemma_02_b.htm)

 

 

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